VOLUNTARIADO, FORÇA DA MUDANÇA

1.

Queridos voluntários, senhoras e senhores! Comprometer-se no voluntariado constitui um eco da gratidão e é a transmissão do amor recebido… Uma cultura que deseja contabilizar tudo e retribuir tudo, que estabelece a relação entre os homens como uma espécie de coluna obrigatória de direitos e deveres, experimenta, graças às inúmeras pessoas empenhadas a título gratuito, que a própria vida é um dom imerecido. Por muito diversas, multíplices ou também contraditórias que sejam as motivações ou as formas de empenho voluntário, na base de todas está no fim de contas aquela profunda vida em comum que brota da "gratuidade".
Foi gratuitamente que recebemos a vida do nosso Criador, gratuitamente fomos libertados do caminho cego do pecado e do mal, gratuitamente foi-nos concedido o Espírito com os seus multíplices dons… Quem está em condições de ajudar reconhece que precisamente desta forma é ajudado também ele; não é mérito seu nem motivo de orgulho o facto de poder ajudar... Gratuitamente transmitimos o que recebemos, através do nosso empenho, da nossa ocupação voluntária...
Sem empenho voluntário o bem comum e a sociedade não podem e não poderão perdurar. A disponibilidade espontânea vive e demonstra-se além do cálculo e do intercâmbio esperado; ela interrompe as regras da economia de mercado. De facto, o homem é muito mais que um simples factor económico que deve ser avaliado de acordo com critérios económicos. O progresso e a dignidade de uma sociedade dependem sempre de novo precisamente daquelas pessoas que fazem mais que o seu dever. Senhoras e senhores! O empenho voluntário é um serviço à dignidade do homem fundada no seu ser criado à imagem e semelhança de Deus… O olhar de Deus, o olhar de Jesus contagia-nos com o amor de Deus. Há olhares que podem cair no vazio ou até serem de desprezo. E olhares que podem conferir deferência e expressar amor. As pessoas comprometidas gratuitamente conferem ao próximo consideração, recordando a dignidade do homem e suscitam alegria de vida e esperança. Os representantes do voluntariado são guardiães e advogados dos direitos do homem e da sua dignidade.
…Há quem vê e finge não ver, tem a necessidade diante dos seus olhos e contudo permanece indiferente, isto faz parte das correntes frias do nosso tempo. No olhar dos outros, precisamente daquele que tem necessidade da nossa ajuda, experimentamos a exigência concreta do amor cristão. Jesus Cristo não nos ensina uma mística "dos olhos fechados", mas uma mística "do olhar aberto" e com ele, do dever absoluto de compreender a condição dos outros, a situação em que se encontra aquele homem que, segundo o Evangelho, é o nosso próximo. O olhar de Jesus, a escola do olhar de Jesus introduz numa proximidade humana, na solidariedade, na partilha do tempo, na partilha dos talentos e também dos bens materiais…
Por fim, o mandamento do amor recorda-nos que ao próprio Deus, mediante o amor ao próximo, nós cristãos tributamos a honra… Se no homem concreto que encontramos está presente Jesus, então a actividade gratuita pode tornar-se uma experiência de Deus. A participação nas situações e nas necessidades dos homens leva a um "novo" estar juntos e age "dando sentido". Assim o serviço gratuito pode ajudar a fazer sair as pessoas do isolamento e a integrar na comunidade.
… Quando alguém não faz apenas o seu dever na profissão e na família – e para o fazer bem já são necessárias muitas energias e um grande amor –, mas se empenha ainda pelos outros, pondo o seu tempo livre precioso ao serviço do homem e da sua dignidade, o seu coração dilata-se. Os voluntários não compreendem o conceito de próximo de modo estrito; eles reconhecem também no "distante" o próximo que é aceite por Deus e que, com a nossa ajuda, deve ser alcançado pela obra de redenção realizada por Cristo. O outro, o próximo do Evangelho, torna-se para nós um parceiro privilegiado perante as pressões e obrigações do mundo no qual vivemos. Quem respeita a "prioridade do próximo", vive e age segundo o Evangelho e participa também na missão da Igreja, que olha sempre para o homem todo e deseja fazer-lhe sentir o amor de Deus…
O "sim" a um compromisso voluntário e solidário é uma decisão que liberta e abre para as necessidades do próximo; para as exigências de justiça, da defesa da vida e da salvaguarda da criação.

(Do discurso do Santo Padre no encontro com o Voluntariado, na Wiener Lonzerthaus, Viena, 9 de Setembro 2007, extracto)

Ler texto completo aqui (página oficial da Santa Sé)

 

2.

Existe em Portugal um número crescente de mulheres e de homens que consideram ser sua responsabilidade intervirem em prol de uma sociedade mais justa e mais solidária, sendo vasto o leque de motivações que os congregam na participação cívica e na acção voluntária.
Trata-se de um enorme potencial de energia a que é preciso dar maior expressão e visibilidade, tanto mais quanto é certo que o pluralismo de tais motivações constitui uma fonte adicional de vitalidade e de interesse para os que juntam a preocupação com as questões sociais concretas a uma concepção activa da cidadania.
A concepção de cidadania que perfilho defende uma responsabilização activa de todos e cada um pelo presente e pelo futuro colectivos.

Não ignoro que são cada vez mais os projectos e os programas que visam combater a pobreza, a exclusão social, a marginalização étnica e outras formas de desigualdade de oportunidades entre cidadãos.
Ainda bem que assim é visto que, como sabemos, é insubstituível o papel que cabe aos poderes públicos na promoção da equidade social.
Mas, a eficácia dessas iniciativas é tanto maior quanto mais participadas elas são e quanto melhor é a ligação entre as pessoas que vivem os problemas e as organizações locais.
Conhecedoras dos problemas e dos recursos, muitas delas têm sabido enfrentar as dificuldades e, com um mínimo de meios, obter resultados que, aliás, mereceriam maior atenção da comunicação social para poderem ser melhor conhecidos da opinião pública.
O voluntariado social é uma das formas de organizar os que querem pôr os seus conhecimentos, o seu tempo e a sua determinação ao serviço da redução das desigualdades de oportunidades e diminuição das outras barreiras que limitam a cidadania das pessoas em situação desfavorável.

O voluntariado é e deve ser uma das formas de exercício de direitos cívicos que organiza capacidades e vontades de contribuir para que todos os cidadãos tenham melhores condições para construir o futuro que desejam para si e para os que de si dependem.

Maria José Ritta

 

3.

O voluntariado é resposta a uma exigência ética, a ética da proximidade, a disponibilidade para se "fazer próximo do outro", como escreve S. Lucas (10, 36) ao propor a parábola do bom Samaritano como exemplo de referência para a relação com o outro.  A valorização da solidariedade constitui um sinal dos tempos.
Tem-se vindo a afirmar uma nova consciência social acerca dos laços de cada um com as categorias de pessoas mais necessitadas. Vão-se constituindo espontaneamente grupos e comunidades que se dedicam a construir iniciativas de carácter social, económico, político e religioso, e de carácter social, económico, político e religioso, e a fazer perceber mais eficazmente os protestos contra os males sociais.
A consciência que se foi tomando de que tudo o que diga respeito à pessoa humana depende do convívio em solidariedade com os outros, qualificou o viver em sociedade não tanto como um simples dever, mas como uma exigência primária do ser pessoa. Uma vida refugiada no individualismo não é vida humana. O OUTRO É METADE DA PRÓPRIA ALMA.
O homem solidário não consegue viver em paz enquanto outros sofrem, sobretudo por razões de injustiça.

A Solidariedade ficaria esvaziada de conteúdo se não aparecesse mediada pela justiça.  Não se deverá pedir por solidariedade o que é devido por justiça social.
Educar para a cidadania aparece cada vez mais como uma feliz expressão que reclama uma nova atitude na relação com o outro, na medida em que o deve ajudar a perceber os seus direitos e os seu deveres, a compreender o sentido da responsabilidade pelo seu próprio destino e pelo destino dos outros.

 Pe. José Maia

 

4.

O voluntariado cristão radica na pessoa e vida de Jesus Cristo. Ele deu o maior testemunho da sua dedicação ao próximo e deixou como regra de vida, para quantos O queiram seguir, o serviço dos outros. Primeiramente, apresentou-se como quem veio «não para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos» (Mt. 20, 28). Depois realizou mesmo o que dissera ter vindo fazer: lavou os pés aos discípulos (Jo. 13, 12-14), concluindo que dera esse exemplo para ser seguido. Finalmente, durante a Ceia, deu-se como "corpo" entregue e "sangue" derramado (cf. Lc. 22, 19-20) e expirou, entregando o espírito nas mãos do Pai, no alto da cruz (cf. Lc. 23, 46). E tudo isso, pode e deve entender-se como acto final de uma vida inteira voltada para os carenciados: os pobres, os pecadores, os marginalizados.

A Igreja sabe bem, na prática, o que é o voluntariado e tem grande apreço pelo bem que é feito, neste mundo, em favor dos desprotegidos. Ela que desde o início soube organizar-se para ajudar os necessitados (cf. Act. 6, 1-4), nunca mais, ao longo dos séculos, deixou de o fazer: pelo ministério da evangelização, pela assistência social, na remissão dos cativos, no campo da saúde, na promoção cultural, na libertação dos povos, na luta pela justiça e pela paz.

A Igreja vê com muita alegria a forma como se está a expandir em todo o mundo, o espírito do voluntariado e como vão surgindo organismos de voluntários nos mais variados sectores da actividade humana. Tenham-se presentes os milhares de colectividades de matriz cívica ou religiosa nas quais milita um numeroso exército de voluntários ao serviço da cultura, do desporto, da promoção humana e do socorro em situações de emergência a todo o tipo de carenciados.
Ficamos felizes por vermos assim reconhecido, na prática, que o voluntariado nasce do coração humano e é um sinal de nobres valores ditados pelo sentido dum humanismo assente na dignidade humana, o qual será profundamente potenciado pelos valores que a Boa Nova de Jesus anuncia e veicula.

Conferência Episcopal Portuguesa

 

5.

O voluntariado tem-se assumido como uma das maiores forças transformadoras do pais, capaz de suprir as naturais limitações do Estado.

O Voluntariado é uma opção de toda a vida.  O aumento da esperança média de vida, com mais anos após a saída da vida profissional, abre, segundo um duplo campo de acção no voluntariado. Em primeiro lugar, temos os problemas surgidos em relação às pessoas com idade avançada; por ou­tro lado, encontramos as novas poten­cialidades que vêm dessas pessoas.

Falando na necessidade de uma "reconversão mental" muitas pessoas "devem alterar a maneira de encarar a fase da reforma". Quando se chega a idades mais avançadas, há a luta entre uma pro­pensão para mais egoísmo e uma ou­tra para mais solidariedade.Vivemos um tempo de re­viravolta, em que as pessoas idosas passam a ser mais solidárias.

O voluntariado jovem é exercido em Portugal e noutros países, às ve­zes com exemplos de generosidade verdadeiramente extraordinários. Muitos estudantes encontram tempo para dar uma ou mais horas por semana para o voluntariado. Para a maioria das pessoas existe voluntariado ao longo da vida.

In “Ecclesia” nº 996